Sempre há um recomeço
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Sempre há um recomeço

Luiza do Carmo Louzada, tem 29 anos, mora no Rio de Janeiro, RJ, e pratica o budismo há 10 anos. A advogada e pesquisadora, trabalha num reconhecido centro de tecnologia e seu grande objetivo é ser uma profissional humanista que contribua para uma sociedade mais justa.


Luiza na UERJ

Quando surgiu o objetivo de trabalhar em prol das pessoas?

Sempre tive vontade de contribuir de alguma forma para a transformação social. Depois de passar por grandes desafios pessoais em 2015, tomei a decisão de tomar atitudes mais concretas, que pudessem disseminar um pouco o que eu vinha estudando. Passei a enviar propostas de artigos para congressos e pude apresentar a minha pesquisa de mestrado em dois congressos nacionais e dois internacionais. Além disso, decidi me inscrever no doutorado da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), mesmo sem ter terminado o mestrado, e orei ao Gohonzon com o sentimento de que aquela aprovação me possibilitaria atuar ainda mais em prol do kosen-rufu.


A quais desafios você se refere que passou em 2015?

Eu me atrasei na produção do meu mestrado e achava que perderia o emprego. Ficava cada vez mais ansiosa. Olhava para a cartolina que colei na parede com os meus incríveis objetivos para o ano e sentia que era impossível realizá-los. Mesmo me sentindo derrotada, não jogava ela fora porque, para mim, era um incentivo. Nessa fase, tive todo o apoio e carinho do Juan, meu namorado.

Em abril, sofri um acidente de bicicleta. Perdi três dentes, fissurei o maxilar e precisei fazer canais e cirurgias na gengiva. Os procedimentos eram dolorosos, caros e cansativos.

Além disso, em 18 de junho soube que meu querido primo, Thomas, havia falecido por motivo de brincadeiras perigosas, especificamente o jogo da asfixia ou jogo do desmaio.¹  Ele morava em São Paulo com a família e tinha 16 anos. Fiquei arrasada.


Como conseguiu vencer tais dificuldades?

A primeira coisa que fiz, foi enviar uma carta para o meu mestre, presidente Ikeda, escrevendo tudo o que estava no meu coração. Na época, eu havia sido selecionada para a Convenção Cultural Comemorativa dos 55 anos da BSGI, SP. Minha família de São Paulo é católica, mas minha tia, Carmem Lúcia, pediu para que eu fizesse uma cerimônia budista de falecimento para o meu primo, no mesmo dia da convenção. Assim, realizamos uma linda e emocionante cerimônia para o Thomas.

Voltando ao Rio, recebi uma mensagem do Ikeda sensei, dizendo que ele estava orando em memória do meu primo. Essa carta nutriu a minha vida de esperança e pude transmitir meu sentimento à família. E um mês após a morte do meu primo, minhas primas, Talita e a Lívia, se converteram juntas; e no mês seguinte, a minha tia Jane, mãe do Thomas.


Na UERJ, Luiza se preparou para uma carreira profissional promissora

Nota do redator: Luiza deu continuidade ao mestrado e nesse período relembra que também teve de ser forte para superar as fortes crises de ansiedade que tinha. Ela até mesmo recorreu à terapia.


Mesmo assim você conseguiu concluir o mestrado?

Sim! Depois de um tempo as crises se estabilizaram. Mas, prestes ao dia da minha defesa, soube que um dos professores da banca não poderia participar. Recitando daimoku, tive a ideia de convidar a Dra. Taysa Schioccet, maior especialista no Brasil em bancos de perfis genéticos para fins de investigação criminal no país, tema do meu mestrado. Ela mora no Rio Grande do Sul e sabia que não seria simples. Tomei coragem, fiz o convite e, para minha surpresa, ela aceitou. A banca foi incrível como determinei e fui aprovada!

No mesmo dia, eu a levei para conhecer o meu trabalho e criamos um elo entre o centro de pesquisa em que ela atua e o que eu trabalho. Em seguida, saiu o resultado do doutorado. Fiquei em segundo lugar!


Tais conquistas a influenciaram profissionalmente?

Concluí que apesar de haver práticas que exploram o uso de dados genéticos no país, a legislação ainda é insuficiente para proteger os direitos humanos das pessoas que têm seu material biológico coletado. Com isso, quero ser uma especialista humanista que contribua para a exploração de dados genéticos em prol da dignidade da vida.

Neste ano, a Dra. Taysa me convidou para revisar e atualizar o próximo livro dela. Recebi um convite para escrever o capítulo de um livro da Sociedade Brasileira de Bioética por conta de um trabalho que apresentei num congresso referente ao meu mestrado.


E o que mudou em sua vida pessoal?

Tudo o que passei recentemente, especialmente a morte do meu querido primo, me reconectou com o significado da minha existência, para que eu possa cumprir a minha missão pela felicidade das pessoas. As orientações do presidente Ikeda e a compreensão sobre vida e morte me possibilitou vencer com coragem. Na família nos tornamos mais unidos e para a nossa imensa alegria, em 18 de agosto, nasceu a Beatriz, minha sobrinha e neném mais sorridente que conheço!(risos).

E também estou realizando os tratamentos dentários e cirurgias na boca e não tenho mais sintomas de ansiedade.


Rafael (irmão), Alessandra (cunhada, grávida de Beatriz), Luiza, Teresinha (avó), Maria Imaculada (mãe), José Luiz (padrasto) [Arquivo Pessoal]
  

Quais são seus planos para o futuro?

Neste ano, vou realizar meu antigo desejo de ir ao Japão conhecer a Soka Gakkai, fazer o gongyo no Auditório do Grande Juramento pelo Kosen-rufu e renovar minha decisão de dedicar minha vida em prol do kosen-rufu. Embarco em 5 de setembro. Meu desejo é aprofundar a minha fé cada vez mais e sempre manifestar a grande alegria do Nam-myoho-renge-kyo.



Nota:

1. Jogos de asfixia ou jogos do desmaio: considerados por crianças e adolescentes como brincadeiras, são atos que consistem em interromper a passagem de ar para o cérebro, provocando o desmaio, com objetivo de buscar sensações de euforia ou de alucinação. Os jogos abordam diversas formas de desafios, propostas a jovens via internet e/ou entre amigos e grupos. Aparentemente vistos como seguros, são na realidade de alto risco, agravados pela falta de informação sobre as consequências. Saiba mais em Instituto Dimi Cuida


Fonte: Com base no Relato do BS, ed. 2.314, 5 mar. 2016, p. A4 

Fotografo: Carlos Alves

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