Todo ser humano tem muito a dizer
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Todo ser humano tem muito a dizer

"Sim, é possível que o autista seja senhor da sua mente, seja um grande valor para a sociedade e que tenha qualidade de vida"

A frustração do déficit de comunicação para um autista, mesmo que não haja ausência da fala, é muito intensa. Eu me lembro de que, quando era criança, sentia que algo me incomodava profundamente e não sabia explicar, nem para mim mesmo, o que era aquilo. Ás vezes poderia ser fome, sono ou uma interpretação da fala de alguém ao longo do dia. A expressão “não sabe nem a hora em que está com fome” funciona no sentido literal para a maioria dos autistas. Nossa autopercepção não é boa. Expor o que a gente está sentindo, mesmo as coisas mais simples, é um desafio intenso.

Eu sempre soube que tinha muito o que dizer, a expressar, a comunicar. Mas me sentia preso em uma condição que de dentro era impossível de explicar e de fora era impossível de entender. Como resultado dessa frustração, vinham as crises, ou colapsos, que são comuns na vida de qualquer autista. São momentos de intenso pânico e agressividade que geralmente vem como fruto de uma sobrecarga sensorial muito grande, devido à hipersensibilidade sensorial ou de dificuldades na comunicação.

Minha prática budista, em um primeiro momento, foi especialmente focada em mudar isso. Fazia daimoku com o objetivo de transmitir aos outros a minha natureza de buda, e não algo que eu não era, mas que parecia ser por causa de minhas crises: uma pessoa sem habilidades sociais, agressiva e triste. Sempre acreditei que a relação que desenvolvemos com os outros é muito importante até mesmo para nossa saúde. Meu cérebro me levou, muitas vezes, à depressão e ansiedade. Para mudar isso, recitava daimoku e me lembra da frase de Nichiren Daishonin no Gosho: “Deve se tornar senhor da sua mente em vez de permitir à sua mente dominá-lo”. Esse é sem dúvida o maior desafio para um autista: tornar-se senhor da própria mente, pois o nosso cérebro tem uma maneira diferente de perceber e interpretar as informações, o que gera ruídos na comunicação. À medida que orava, os caminhos a seguir ficavam cada vez mais claros.

Olhar para o Gohonzon era olhar para um espelho e perceber que eu tinha muito a revolucionar. Mas foi a melhor coisa que eu poderia ter feito. À medida que eu ia me transformando internamente, cuidando da minha revolução humana, não apenas me sentia mais feliz com a pessoa que enxergava no espelho, mas percebia a mudança do ambiente e das pessoas ao meu redor. O budismo me ajudou a buscar o “caminho do meio” em todas as áreas de minha vida, inclusive na comunicação. Eu sabia que era importante que eu fosse entendido, mas também queria entender as outras pessoas. Com a prática, eu me tornei capaz de atingir esse equilibro.

Atualmente, a comunicação é parte indispensável da minha vida. Estou a caminho do quinto período do curso de jornalismo, escrevo livros, dou palestras sobre autismo, tenho o canal “Mundo Asperger” no YouTube, tenho colunas em revistas e na WebRadio de minha faculdade. As pessoas que me conhecem hoje, às vezes, não têm a dimensão de que eu já fui alguém que tremia horrores ao segurar um copo d’água na frente dos outros, tamanha era minha fobia social. Ao escrever meus textos ou gravar meus vídeos, eu sempre penso que quero tocar o coração das pessoas, inclusive aquelas que enfrentam os mesmos desafios que eu enfrentei (e enfrento) ao longo da vida. O exemplo de Ikeda sensei me orienta a mostrar a todo o meu público que todos temos o potencial de buda dentro de nós e que, por maiores que sejam as adversidades, toda vida humana pode revelar esse potencial.

O budismo me ajudou a, como comunicador, sempre querer transmitir mensagens que transformem positivamente a vida dos meus leitores e espectadores. E me deu segurança para falar: sim, é possível que o autista seja senhor da sua mente, seja um grande valor para a sociedade e que tenha qualidade de vida. A prática também me fez ter benevolência para entender os diversos lados das várias discussões que rondam o tema “autismo”. Dizem que o autista, muitas vezes, não consegue se colocar no lugar do outro. Hoje eu sei que eu consigo.

Budismo é vida diária e não consigo realizar meu trabalho, ou mesmo atuar como estudante em minha faculdade (ao lado de meus colegas, professores e amigos) sem basear minha fala no humanismo Ikeda, que aprendi como membro da Gakkai. As pessoas dizem que o meu canal trata de um assunto pesado de forma leve, sem perder a densidade. Esse é um grande benefício que a prática trouxe à minha atuação profissional. Não existe um Victor budista e outro Victor comunicador. Sou um só. É incrível como a mudança interior gera uma mudança no ambiente, e vejo mais pessoas conscientes de que podem transformar o carma em missão e o veneno em remédio.

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