Tudo pela igualdade
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Tudo pela igualdade

Numa entrevista feita por e-mail, a assistente social, Ariana Kelly dos Santos, nos conta qual é a sua motivação para trabalhar pelo bem-estar das pessoas. Ela que pratica o budismo há 21 anos, cita que a atuação na Soka Gakkai foi essencial na escolha da profissão. "Com o budismo aprendi a tratar a todos com dignidade independente de como essa pessoa se apresente a mim. Atendo na maioria pessoas muito pobres, com escolaridade baixa e com pouca compreensão dos seus direitos, então tento sempre mostrar a elas que estou ali pra servi-las e não ao contrário", diz.


Como você se interessou em trabalhar na área social?

Eu queria algo que pudesse fazer com paixão, pois passamos muito tempo da nossa vida trabalhando. Então, optei por uma profissão me permitisse contribuir pelo desenvolvimento da sociedade.

Sou servidora pública de uma prefeitura no estado do Rio de Janeiro, uma área profissional muito criticada pela fama de que os servidores públicos não trabalham como deveriam. Mas para mim, todas as pessoas merecem e devem ser atendidas com total dignidade.

Recitei muito daimoku até resolver cursar serviço social, a princípio para trabalhar com jovens em conflito com a lei. Acredito que esse desejo estava ligado à minha história, pois nasci e morei na favela (concebida como um local de resistência e resiliência) por muitos anos.

Depois de começar a estudar, acabei me apaixonando pela área de políticas para a igualdade de gênero, e aí desde o fim da graduação, venho me especializando acadêmica e profissionalmente nessa área. O objetivo é atuar em políticas que diminuam as desigualdades entre homens, mulheres e a população LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros) na sociedade.


Você também atua em defesa dos direitos das mulheres em situação de violência. O que tem sido feito no Brasil para a reversão dos altos índices de violência contra a mulher?

O Brasil é o 5º país que mais comete o crime de feminicídio1, ou seja, matar a mulher só pela sua condição de ser mulher, e o maior índice desse crime é cometido pelos companheiros das vítimas.

O Estado brasileiro a partir de 2003, conseguiu construir muitas políticas de proteção às mulheres em situação de violência. Uma delas foi criar os centros de referência de atendimento, onde as mulheres recebem atendimento social, jurídico e psicológico para sair da situação de violência.

Em particular, com meus estudos tenho refletido sobre as políticas existentes e apontado caminhos possíveis para gerar ações que resultem na diminuição da violência doméstica e familiar contra as mulheres.


Então, a diferença de gêneros contribui negativamente para esse cenário de violência doméstica?

Sim. Cientificamente se aponta que na sociedade atual se construiu padrões sociais de gêneros, ou seja, se utilizou dos gêneros (feminino e masculino) para criar papéis ditos “naturais”, como se a biologia de cada um determinasse como ele deveria agir na sociedade. Então, quando um homem ou uma mulher não respondem a esses padrões ditos “naturais” da sociedade eles são discriminados, sofrem violência.

Pessoas de qualquer gênero devem ser concebidas como iguais na sociedade. Biologicamente podem ser diferentes, mas a biologia não pode definir a condição social do indivíduo.

Além disso, minha percepção e de pesquisadoras da área apontam que a cultura existente ainda é da imagem da mulher como um ser frágil, com incapacidades de pensar e agir por si próprias. É essa cultura que fundamenta as desigualdades e a discriminação.


Na contramão dessa realidade, você acredita que o budismo empodera as mulheres?

Muito! Por si só, o fato de o Sutra do Lótus ser o único sutra budista em que consta que as mulheres podem atingir a iluminação (em uma época em que elas eram esquecidas), mostra o quanto essa filosofia respeita a figura feminina.

Os ideais dos movimentos feministas2 para acabar com as desigualdades entre os gêneros já estão presentes na filosofia budista da Soka Gakkai há tempos! E, o presidente Ikeda em seus textos direciona as mulheres a se tornarem seres autônomos, que primeiro evidenciem a felicidade que têm dentro de si, que se conheçam como seres humanos e que tenham uma identidade própria. Somente a partir dessas condições poderão criar relacionamentos de respeito e companheirismo.


O presidente Ikeda também afirma que as mulheres são protagonistas do século.

As mulheres historicamente tem uma luta contra as opressões. E pode ser que toda essa força que o presidente Ikeda diz que temos, venha de tantas lutas que tivemos que empreender para sobrevivermos e sermos respeitadas.

Tivemos que aprender a ser mães, companheiras, trabalhadoras, mantenedoras da família, realizamos inúmeras tarefas ao mesmo tempo, enfim. As mulheres têm uma capacidade de abdicar de si próprias e com isso, acredito que tenham desenvolvido uma força imensurável em momentos cruciais. Essa força vem do âmago da vida; uma força embasada no "viver ou viver!". É essa a força convicta necessária para mudarmos o rumo da nossa vida; a mesma que todos necessitam manifestar para mudar o rumo da sociedade, respeitando cada indivíduo.


Assim como o princípio budista de prezar cada pessoa?

Sim. O conceito de prezar cada pessoa no budismo é essencial para o futuro da sociedade, pois se não compreendermos que todos têm importância e o melhor que existe no universo dentro de si, continuaremos em um ciclo vicioso de ódio e violência. Historicamente o Brasil tem uma luta contra a opressão desde a sua colonização. E embora as pessoas almejem conquistar direitos, a essência disso é a luta para cada um ser respeitado da forma que é.



Você também pode conferir a história da Ariana na íntegra publicada no BS, ed. 2.247, 11 out. 2014, p. A4

Notas:

1. Violência contra Mulher

2. Movimento Feminista é um movimento que surge a partir da identificação da opressão que a mulher vivenciava e era submetida pelo sexo masculino a partir da construção social de papéis estabelecidos socialmente, e toma força na segunda metade do século XIX. (PINTO, Céli Regina Jardim. Uma História do Feminismo no Brasil. 1 ed. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2003)

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