Uma história do meu jeito
  • ENTREVISTA

Uma história do meu jeito

Yara tem 33 anos, é mãe e pratica o budismo há 9 anos.

Se destaca sua habilidade com as artes visuais. E, por muito tempo coloriu muros pela cidade de São Paulo. Agora, inicia uma nova jornada. De malas prontas e grandes expectativas nos concedeu uma entrevista rápida feita por e-mail. O por quê das malas? "Estou indo para uma aldeia indígena em Pernambuco!", conta.


Como surgiu a ideia de morar numa aldeia?

Conheci esse lugar em julho de 2015. Estava recém-separada, saindo de uma tentativa frustrante de retomada da relação com meu ex-marido. Fui com o Téo, meu filho. Chegando lá, fui recebida pelo Xumayá e aí começou nossa história.

Agora depois de um ano, eu me mudei para a aldeia com o sentimento de desenvolver o kosen-rufu por aqui, ao lado do meu novo parceiro, proporcionar uma infância melhor para meu filho e resgatar minhas raízes. Em Águas Belas, cidade que faz divisa com a aldeia, tem um único praticante que se tornou meu amigo. Temos grandes objetivos pela frente.


Yara e o companheiro, Xumayá

A curiosidade pela cultura indígena foi um estímulo para sua decisão?

Conhecer minha ancestralidade sempre foi um desejo. E no budismo dizemos que com a prática do Sutra do Lótus movimentamos a vida sete gerações passadas e sete gerações posteriores à nossa. 

Tudo começou, em maio de 2014, quando conheci o irmão do Xumayá num evento no meu estúdio. Conversando com ele descobri que o povo da minha bisavó paterna (por ser a única etnia de Pernambuco do tronco linguístico macro gê, e ser próximo da cidade em que meu avô saiu de pau de arara para São Paulo e da cidade que ele foi registrado) era a mesma etnia que a dele, a Fulni-ô. Das cerca de 300 etnias indígenas existentes no Brasil, justamente um membro da etnia da minha bisavó apareceu em casa, foi muito místico. Se eu não acreditasse que nada é por acaso eu acharia que se tratava de mera coincidência. Por isso ter atenção para com o coração é uma recomendação muito séria do nosso mestre. Eu desejei resgatar minha identidade no meu íntimo! Pode não ter parecido ser um objetivo consciente, mas veio (risos).


Como você conheceu o budismo?

Em junho de 2006 eu, com meu filho de 3 meses nos braços fui, a convite da Biba Rigo, artista plástica e minha vizinha, numa reunião de palestra comemorativa da fundação da Divisão Feminina da BSGI em sua casa.

Exatamente um ano depois, em junho, tendo gradualmente mergulhado na prática, em meio a uma possibilidade de separação e muito sofrimento em meu relacionamento, recebi o Gohonzon e me converti.


O que mudou em sua vida?

Comecei a prática sem saber o que queria para minha vida, perdida, no fim do casamento com o pai do meu filho, em meio à muitas brigas, desrespeito e uma situação financeira sempre difícil. Eu sofria em uma relação abusiva e buscava harmonia familiar. Esse era meu ponto de partida. Agora, 9 anos depois, minha situação é completamente diferente.

No escrito Carta a Niike, Nichiren Dishonin cita: “A viagem de Kamakura a Quioto leva doze dias. Se viajar durante onze dias e parar antes de completar o décimo segundo dia. Como poderá admirar a lua da linda capital?”. De Kamakura a Quioto, citando o Gosho, sinto que meu percurso de libertação e expiação do mal carma de relacionamento e revolução humana na condição de mulher chega em seu destino. No caso de São Paulo para a aldeia dos Fulni-ô em Pernambuco. 

Seguindo este ensinamento do Gosho, dentre tantos outros da nossa filosofia eu não desisti e estou vivendo essa nova etapa que para mim é o ápice da felicidade. Eu me sinto vitoriosa, pois várias mulheres se frustam e desistem no meio do caminho. O machismo e as relações abusivas são uma tendência característica da sociedade brasileira que precisam ser combatidos profundamente, vida a vida para influenciar e transformar a realidade como um todo.




Pintura "lenda da guerreira Naia"́ na Vila Madalena, São Paulo

Você acredita que sua história pode incentivar as pessoas?

Creio que posso com a minha transformação incentivar outras pessoas que estiverem sofrendo como eu estava quando comecei a prática. Com essa postura consegui fazer com que 14 pessoas a iniciarem a prática budista também.

Como mulher, tenho me dedicado a encorajar outras mulheres por meio do meu trabalho a construírem cada qual a sua própria história para que a realidade do nosso país e do mundo inteiro seja transformada. Precisamos sair da cultura do desrespeito e dar voz às mulheres de uma forma digna.


Quais são os seus planos futuros?

Acho que fui corajosa! Saí da minha casa, de uma vida confortável para contribuir pela felicidade de outras pessoas. E, por ter conseguido um acordo no trabalho e ser demitida com todos os direitos de um corte, pude usar o dinheiro para dar entrada em um terreno para dar continuidade ao nosso projeto em bio-construção para promover o etno-turismo na região. Venci a insegurança que me acompanhava desde a infância e me sinto forte para enfrentar o que vier! Comprovei a orientação do Mestre que diz que as pessoas que mais sofrem serão as mais felizes. E, assim como ele afirma: “Este é o século das mulheres. Vençam todas sem falta”, quero vencer cada vez mais!

TAGS:ENTREVISTA

• comentários •

;