Uma visão holística sobre a saúde
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Uma visão holística sobre a saúde

No livro Ser Humano — Essência da Ética, da Medicina e da Espiritualidade, dois dos autores, Daisaku Ikeda e Guy Bourgeault, discutem o significado de ter uma boa saúde (p. 84-85). Veja o trecho extraído e adaptado da obra

Bourgeault: Em essência, uma boa saúde não é tanto a ausência de doença mas, principalmente, a tensão entre o equilíbrio precário e a dinâmica constante para o seu restabelecimento. Gosto de compará-la com o ato de caminhar.

Só conseguimos caminhar se estivermos dispostos a aceitar o risco de perder o equilíbrio ao nos movermos. Um novo passo retoma o equilíbrio de forma temporária até darmos o seguinte. Uma cadeia de equilíbrio perdido e recuperado nos capacita a caminhar.

(...)

Ikeda: Gostei da sua descrição de boa saúde como uma realidade dinâmica em vez de estática. De acordo com o sutra budista indiano Coletânea do Itinerante (Caraka Samhita), estar livre de doenças é fundamental para a vida humana e primordial para o bom trabalho, o sucesso, o desejo sexual e a libertação das amarras da ilusão e do sofrimento nos três mundos. “Estar livre de doenças” significa muito mais do que ausência de enfermidades. A boa saúde é definida não somente com base em diagnósticos de anormalidades físicas mas também com uma visão holística da vida que inclui elementos espirituais.

De acordo com o estatuto da Organização Mundial da Saúde (OMS), a saúde é uma condição de total bem-estar físico, mental e social e não simplesmente a ausência de doenças ou males. Em outras palavras, o conceito de boa saúde não se limita ao aspecto físico, estende-se também ao espiritual e ao social.

Qual é a sua opinião sobre expandir o conceito de saúde à totalidade da existência humana?

Bourgeault: Por um lado, simpatizo com a perspectiva holística da OMS.

No entanto, essa definição de saúde, certamente ambiciosa demais, corresponde a um ideal de completa vitalidade e absoluta felicidade que, na realidade, é inalcançável. De certo modo, é uma ingenuidade dizer que saúde não é somente ausência de doenças ou males mas também uma condição de total bem-estar físico, mental e social, nada menos que isso!

Em 1978, a OMS forçou a ingenuidade, e não a audácia, quando chegou a propor a meta de “boa saúde para todos em 2000”. Além do slogan, a ilusão e a fantasia eram perfeitamente óbvias.

A definição proposta por Georges Canguilhem (1904–1995) na obra Britannica Micropaedia (1992) parece mais realista: a saúde nos seres humanos é a capacidade prolongada de conseguir lidar com o próprio ambiente de forma física, emocional, mental e social. Apesar de ser semelhante à versão da OMS, essa definição dá espaço para a dinâmica do esforço e a tensão que já mencionei. Isso nos faz lembrar que a boa saúde não é uma condição estável, ela está sempre sob ameaça e não há como garanti-la. E o mais importante, ela nunca é completa e total, ou seja, jamais é perfeita.

Ikeda: Nichiren Daishonin ensinou que “os quatro sofrimentos do nascimento, envelhecimento, doença e morte são a natureza do mundo tríplice”.1

Em outras palavras, uma vez que todos os seres vivos devem passar pelo nascimento, pelo envelhecimento, pela doença e pela morte, a doença é um componente natural do ciclo da vida; não significa necessariamente uma derrota. Ao contrário, a luta para confrontar a doença nos capacita a celebrar a vitória da experiência humana. Os esforços em direção a essa realização são a dinâmica da vida e o equilíbrio que o senhor mencionou.

Nichiren Daishonin também declarou: “A doença faz surgir a determinação de atingir o caminho”.2 A doença ajuda as pessoas a experimentar um modo de vida mais realizado ao fazê-las refletir sobre o significado e a dignidade da vida. É exatamente o processo de superar a doença que forja o corpo e a mente e nos capacita a fortalecer ainda mais nosso equilíbrio. Essa é a fonte que irradia boa saúde.

Notas:

1. Gosho Zenshu (Coletânea dos Escritos de Nitiren Daishonin), p.753.

2. The Writings of Nichiren Daishonin (Os Escritos de Nitiren Daishonin). Tóquio: Soka

Gakkai, 1999, p. 937.

 

 

 

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