Vencer é uma arte
  • ENTREVISTA

Vencer é uma arte

"Toda vez que a escuridão da guerra, a desconfiança e a discriminação assolam a humanidade o artista é convidado a mostrar uma saída"

Nota do redator: Ronaldo Robles tem 46 anos e é responsável do Departamento de Artistas da BSGI.

 Entre um e-mail e outro, conversamos a respeito da sua vida e os desafios que enfrentou na juventude, e sobre como a arte se tornou o agente transformador da sua realidade.

Inspirado pelos incentivos do presidente Ikeda, esse autêntico sonhador jamais deixou de tentar e não foi fácil! Não importa. Ronaldo não perdeu o brilho nos olhos de garoto, nem o desejo de ganhar o mundo com seus ideais. Assim o fez. Logo, sua história passou a ter outras dimensões com os novos amigos que fez, os grandes projetos que idealizou e as conquistas cada vez maiores. 

À frente da Cia Quase Cinema (fundada em 2004) Ronaldo e a esposa, Silvia, partem para a Grécia no próximo dia 27, a convite de uma instituição internacional para levar, por meio das artes cênicas, esperança, beleza e coragem para as crianças refugiadas. "Quando soube que nesses campos têm muitas crianças que foram separadas de suas famílias, e estão sozinhas e sem pátria, eu me lembrei do meu sofrimento quando criança, ficando longe dos pais. E, tal como Daisaku Ikeda solicita [na Proposta de Paz deste ano] aos cidadãos do mundo que colaborem e protejam os refugiados, decidimos ir ao encontro dessas pessoas como indivíduos que acreditam no potencial transformador do ser humano", diz


Assim como essas crianças, você teve uma infância desafiadora. Quais são as lembranças que tem dessa fase?

Nasci numa família pobre, doente e com muita desarmonia. Fomos, meus irmãos e eu, criados pela minha avó. Meus pais viviam em guerra, e certa vez, minha mãe desapareceu por algum tempo até que foi encontrada num parque em São Paulo sem memória, como moradora de rua. Depois disso, ela passou por 20 internações em hospitais psiquiátricos, que na época tratava os doentes com choques na cabeça. Mas, hoje ela está muito bem, sem problemas, feliz.


Quem iniciou a prática budista em sua família?
Era 1967 e minha família sofria com o desaparecimento de meu tio, devido seu envolvimento com as lutas pela liberdade e contra a ditadura. Com isso, minha avó, Odete, conheceu o budismo e resolveu praticá-lo. Em 2017 fará 50 anos que minha família ingressou na BSGI.

Como o budismo o auxiliou nessas questões?

Participar dos encontros e diálogos promovidos pela BSGI foi minha maior alegria. Aprendi que o sofrimento é o combustível para a vitória. Encorajado, sentia que deveria cuidar de meus irmãos e me esforcei para isso. Enfrentei intensos desafios, mas jamais me afastei da BSGI. Tive a grata oportunidade de integrar a banda Taiyo Ongakutay, minha melhor escola da vida.


Nota do redator: Aos 17 anos, Ronaldo decide transformar a condição financeira e monta uma confecção junto com um dos irmãos. Durante 10 anos trabalha como estilista, criando roupas e assessórios para grandes marcas nacionais: "Também tive minha própria marca sendo vanguarda da moda. Foi na época do aclamado Mercado Mundo Mix e fui precursor das roupas feitas de lona de caminhão. Era muito jovem e sem experiência como empresário, perdi tudo", conta.


Como você se restabeleceu?

Com a quebra dos negócios, fui morar em Londres, na Inglaterra. Na SGI UK, liderei a Divisão Masculina de Jovens de uma comunidade por 2 anos. Eu era paisagista e fazia parte de um grupo de jovens que grafitavam lugares abandonados pela cidade. Foi uma experiência fantástica e enriquecedora para minha vida. Viajei com mochila nas costas para o Egito, Turquia, Polônia, Holanda, França, Alemanha, Itália. Fiz muitos amigos artistas pelo do mundo. Por onde passava me interessava cada vez mais pela história da arte.


Festival Internacional de Teatro de Sombras
 

Nota do redator: De volta ao Brasil, Ronaldo tem o grande sonho de colorir a periferia da cidade de São Paulo e durante um ano, leva cor e arte para um determinado bairro a cada semana. Este trabalho resulta em muitos contatos no meio artístico e reconhecimento. "Participei de exposições na Casa das Rosas, SP, e no Museu de Arte de Ribeirão Preto, SP. Produzi curta-metragens para festivais pelo Brasil. Neste período fui convidado para integrar o núcleo de arte educação do Museu Brasileiro da Escultura, SP."


Foi nessa época que conheceu a sua esposa?

Eu a conheci numa exposição no Museu de Arte Moderna, em São Paulo. Ela era para mim uma pintura cheia de cores e esperança. Toda a experiência e luta que fiz durante a juventude se manifestou no momento que decidimos ter um filho. A Vitória nasceu em 2002, mesmo ano da minha estreia como ator num espetáculo que chegou a 300 apresentações. Aquele foi um ano significativo.


Como o teatro entrou na sua vida?

Foi uma descoberta incrível! O fato de a arte criar um mundo novo, contar uma história que nasce na cabeça de alguém, me encantou. Minha mãe quando ficava doente inventava histórias incríveis com tanta verdade que as pessoas acreditavam. No universo teatral, aquilo de certa forma, me parecia comum.


Você e sua esposa então fundaram uma companhia de teatro.

Em 2004 criamos a Cia Quase Cinema, produzindo histórias para crianças e adultos, sinto que o teatro e as artes me salvaram. A vida me ensinou desde muito pequeno que podemos criar uma nova história e minha mãe foi minha professora. Pela Cia Quase Cinema recebemos prêmios federais e estaduais. Somos referência no Brasil em teatro de sombras e recentemente estivemos na Alemanha onde os críticos e público nos presentearam com belas saudações pelo nosso trabalho artístico.


Você afirma que é possível viver de arte no Brasil. Como faz isso?

Meu mestre, Daisaku Ikeda, me ensinou que podemos transformar o mundo com a nossa história. E digo que é possível viver de arte no Brasil, porque tornei isso realidade. Minha esposa e eu, trabalhamos com teatro há 14 anos, e com nossas atividades compramos uma casa onde construímos um galpão em que realizamos ensaios, oferecemos cursos de teatro e realizamos encontros budistas. Claro que no início foi difícil, mas a persistência naquilo que acreditamos trouxe a vitória.


Espetáculo da Divisão dos Estudantes da BSGI. SP, 2016
 

Nota do redator: Ronaldo revela que em 2007, concretizou outro antigo sonho: entrar numa universidade. "Conclui o curso de ciências sociais/antropologia, na Universidade de São Paulo. Confesso que a boa sorte está no fato de dedicar a vida em prol da expansão do humanismo budista da Soka Gakkai. Baseio minha vida no lema: fazendo do coração do meu mestre, o meu próprio, eu desbravarei o caminho da paz e da cultura. Assim, avanço a cada etapa”.


Foi com essa determinação que assumiu a liderança do Departamento de Artistas da BSGI?

Sem dúvida! Eu me tornei líder do Depart em 2013 e hoje somos mais de quinhentos artistas divulgando a arte a filosofia humanista do budismo por meio da arte. Acredito que toda vez que a escuridão da guerra, a desconfiança e a discriminação assolam a humanidade o artista é convidado a mostrar uma saída. Não podemos desistir. A frase do buda Nichiren que me inspira, por conter a transformação e a tragédia – elementos necessários para o alimento do espírito artístico e poético da vida – é “O inverno nunca falha em se tornar primavera”, conclui.


Fotos: arquivo pessoal

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Para saber um pouco mais sobre a Cia Quase Cinema acesse: www.ciaquasecinema.com/

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