Amor e paciência: o mundo fantástico das mulheres
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Amor e paciência: o mundo fantástico das mulheres

Expandindo seu amor do nível pessoal para o universal, as mulheres podem tornar-se uma grande força para a manutenção da paz

O historiador britânico, Arnold Toynbee, e Daisaku Ikeda dialogam sobre as muitas faces do coração das mulheres.


Daisaku Ikeda:

Duas das características notáveis na mulher são a pureza no tocante ao amor e a tendência para a possessividade. Claro que esses traços ocorrem também no homem. Na verdade, alguns homens manifestam-nos em grau mais alto que as mulheres.


Arnold Toynbee:

Concordo que, normalmente, amor e possessividade são mais fortes nas mulheres que nos homens. A esses dois traços femininos eu acrescentaria a paciência que, com a possessividade, é um corolário do amor.


Daisaku Ikeda:

Acredito que o tipo de amor característico da mulher pode tornar-se uma grande força social. O senhor disse que possessividade e paciência são corolários do amor. Certamente a paciência é uma ajuda sem paralelo para se dar expressão concreta à emoção do amor. A possessividade embora intensifique a paixão pelo amado, pode limitar o amor. A questão importante não é permitir ao amor estreitar seu campo de operação ao eu ou àqueles imediatamente associados ao eu, mas inspirá-lo para que busque maneiras de refletir-se sobre toda a sociedade. Se homens e mulheres tomassem essa atitude em relação ao amor que é parte inerente a seu ser, encontrariam um ponto de partida para criar uma nova imagem da humanidade por meio de sua própria ação independente.


A capacidade de amar da mulher

Arnold Toynbee:

Concordo que o amor tende a ser mais forte e a belicosidade mais fraca nas mulheres. Essa virtude feminina será da mais alta importância para ajudar a humanidade a atingir pelo menos dois objetivos indispensáveis no futuro próximo: a abolição da guerra e a contenção da competitividade agressiva.


Daisaku Ikeda:

As mulheres podem contribuir para estimular o desenvolvimento dessa imagem se se recusarem a confiar seu amor a indivíduos e o estenderem a todas as coisas. Se nos perguntamos por que mulheres amam o marido e os filhos, acho que podemos responder que isso ocorre porque elas instintivamente guardam e protegem a vida, o que de mais valioso existe no universo. Caracteristicamente, desde que dão nascimento à nova vida fenomenalizada, as mulheres amam mais e odeiam mais qualquer ameaça à vida do que os homens. E porque tal é o âmago do amor da mulher pela vida, sua capacidade de amar pode crescer até a escala universal.


Arnold Toynbee:

Sabemos que elas são mais avessas à guerra que os homens. Embora tradicionalmente sejam isentas do serviço militar, a tendência natural delas é sentir que a morte ou mutilação do marido e filhos na guerra é uma atrocidade que não pode ser justificada, sejam quais forem os ganhos que a vitória traga para o Estado do qual são cidadãs. (As mães espartanas que mandavam os filhos para a morte na guerra são tristemente célebres porque a atitude delas era repulsivamente antinatural.)


Daisaku Ikeda:

A inerente tendência feminina para proteger a vida revela-se da mais alta importância para a humanidade e a sociedade humana. Expandindo seu amor do nível pessoal para o universal, as mulheres podem tornar-se uma grande força para a manutenção da paz. A jornada delas por esse caminho pode ser lenta, mas será por certo segura. Viver de acordo com a missão feminina essencial é o caminho para a autêntica liberação da mulher.


Arnold Toynbee:

Há também algumas indicações de que as esposas de sindicalistas não se entusiasmam tanto quanto os maridos que tentam extorquir aumentos de salários mediante greves que sacrificam temporariamente a família e podem fazer isso de um modo permanente se levarem a indústria na qual ganham seu sustento à falência. Nesses dois campos, a possessividade e a capacidade de amar da mulher agem juntas para lançar seu voto em favor da paz, e não da guerra, em favor da cooperação, e não do conflito econômico.


Universalidade do amor

Daisaku Ikeda:

É impossível chegar à universalidade do amor se nossas emoções permanecerem estreitas e preconceituosas em sua aplicação. Além disso, o amor que não é universal, mas fundado em preconceito, não o é no sentido mais profundo. A fim de sistematizar o verdadeiro amor, os grandes líderes religiosos julgaram essencial romper com o amor dirigido exclusivamente aos pais. Mas, como consequência, mostraram aos pais um amor mais verdadeiro.


O budismo busca como fonte desse amor a força vital universal inerente a todas as pessoas. Em outras palavras, contrastando com Mo Tzu, que ensinou apenas a importância do amor universal, Shakyamuni demonstrou que cada ser humano pode gerar o amor dentro de si mesmo.


A razão da veneração demonstrada a ele por incontáveis gerações e em muitas partes do mundo é o fato de que, como corporificação do amor universal, tornou-se uma personalidade cuja radiância tem iluminado o espírito do homem durante épocas seguidas, brilhando inalterada até hoje. Shakyamuni foi um grande líder religioso; não se limitou a ensinar teorias e filosofia, manifestando sua religião em ações práticas durante toda a vida, que foi a corporificação de sua mensagem. Cristo, Maomé e São Francisco também foram aquilo que ensinaram.


Arnold Toynbee:

O senhor tem toda razão. Embora a possessividade da mulher tenda a limitar-lhe o horizonte ao interesse pelos membros da família, o amor feminino é potencialmente universal, porque a universalidade é a essência do próprio amor. Amar significa dar-se, em oposição a tirar para si. O amor, como a possessividade, não tem outros limites senão os limites do universo.


Fonte: Brasil Seikyo, ed. 2.181, 25 maio 2013, p. A3
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