Comunicação para um genuíno diálogo
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Comunicação para um genuíno diálogo

No trecho extraído e adaptado do livro Educação Soka, p. 70-72, Daisaku Ikeda aborda que o mais importante num diálogo é a disposição verdadeira de ouvir e compreender o outro

No budismo, encontramos os conceitos da “unicidade do bem e do mal” e da “neutralidade fundamental da vida em relação ao bem e ao mal”.1 Por exemplo: para o buda histórico Shakyamuni [que representa o bem] atingir a iluminação e, desse modo, cumprir seu propósito na vida teve de existir um mal ou o outro, no caso, seu primo Devadatta, que tentou desmoralizá-lo e destruí-lo. Em contraste, a falha em reconhecer e harmonizar a si próprio com a existência do outro é a mais básica de uma atitude apática e cínica com relação à vida, na qual existe somente o eu.

Uma concepção mais verdadeira e completa do eu encontra-se na totalidade da psique que é, sem dúvida, ligada ao outro.

Carl Jung traçou uma distinção entre o ego, que conhece apenas o conteúdo exterior da psique, e o eu, que conhece também o seu conteúdo interior e unifica o consciente e o inconsciente. No mundo da apatia e do cinismo, verificamos somente um senso isolado do eu vagando na superfície da mente consciente — a que Jung se refere como ego.

O eu desprovido da identificação com o outro é insensível à dor, à angústia e ao sofrimento do outro. Tende a confinar-se no próprio mundo sentindo-se ameaçado à menor provocação, desencadeando um comportamento violento ou virando as costas com indiferença.

Eu me arriscaria a dizer que essa mentalidade possibilitou o surgimento de ideologias fanáticas, como o fascismo e o bolchevismo, que assolaram o século 20. Numa época recente, testemunhamos o nascimento da realidade virtual, que é capaz de obscurecer ainda mais o outro. Visto sob essa luz, fica claro que nenhum de nós pode permanecer como mero espectador ou considerar o comportamento problemático das crianças como responsabilidade de outros.

No decorrer de um diálogo que tive com o especialista sobre paz Johan Galtung, ele mencionou que o pré-requisito para o diálogo externo é o diálogo interno.2 Se o conceito de outro estiver ausente no eu, será impossível ocorrer o verdadeiro diálogo.

A conversa entre dois indivíduos que carecem da percepção do outro pode parecer um diálogo, mas, na verdade, é mera troca de afirmações unilaterais. A comunicação simplesmente não acontece.

O mais lamentável nesse tipo de espaço semântico — ao mesmo tempo verboso e vazio — é que as palavras perdem a ressonância e, no fim, são sufocadas e morrem. A morte das palavras indica naturalmente a extinção de um aspecto essencial de nossa humanidade — a capacidade para a linguagem que nos rendeu o nome Homo loquens [homem falante].

A realidade somente pode ser revelada por meio de um genuíno diálogo em que o eu e o outro transcendem os estreitos limites do ego e interagem por inteiro. Este senso inclusivo de realidade expressa uma espiritualidade humana abundante em vitalidade e empatia.

Num discurso que proferi na Universidade de Harvard, em 1991, declarei que a época exige soft power [poder brando]. Sugeri que uma espiritualidade motivada a partir do eu interior constitui a essência do soft power e que essa espiritualidade deriva de processos direcionados a partir do eu interior. Esse processo torna-se evidente quando o espírito passa por fases de sofrimento, conflito, dúvida, amadurecimento consciente e, finalmente, determinação.

É somente na fornalha de interações intensas e de coração aberto — os processos incessantes e de apoio mútuo de diálogos internos e externos entre o eu e o outro [o outro profundamente interiorizado no eu] — que nossa vida é forjada e polida. Só então começaremos a entender e comprovar de modo pleno a realidade de estar vivo. Só assim manifestaremos o brilho da espiritualidade universal que abarca toda a humanidade.

 

Notas:

1. The Writings of Nichiren Daishonin [Os Escritos de Nichiren Daishonin]. Trad. Comissão de Tradução do Gosho (Ed.). Tóquio: Soka Gakkai, 1999.

2. GALTUNG, Johan; IKEDA, Daisaku. Choose Peace: A Dialogue between Johan Galtung and Daisaku Ikeda [Escolha a Paz: Diálogo entre Johan Galtung e Daisaku Ikeda]. Londres: Pluto Press, 1995, p. 64.

 

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