União em prol da paz
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União em prol da paz

Trecho retirado da Proposta de Paz da edição de maio de 2020 da revista Terceira Civilização, com foco no segundo compromisso exposto pelo Dr. Daisaku Ikeda — “o desafio da construção”.

O segundo compromisso que eu gostaria de discutir se relaciona com a importância da ação conjunta e construtiva em vez de somente veicular um sentido compartilhado de crise.

Os primeiros alertas sobre o aquecimento global causado pelo homem foram emitidos em 1980 e a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) foi adotada em maio de 1992, pouco antes da realização da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (a Cúpula da Terra) no Rio de Janeiro. O Protocolo de Kyoto foi adotado em 1997 com o objetivo de reduzir as emissões de gases de efeito estufa por economias desenvolvidas e, em dezembro de 2015, o Acordo de Paris foi adotado como a primeira estrutura global a incluir economias emergentes e em desenvolvimento.

O pano de fundo para o estabelecimento de um modelo de ação global foi a profunda percepção da crise surgida a partir de estudos científicos conduzidos pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).

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Apesar de o Acordo de Paris ter se tornado operacional neste mês, sérios desafios planam sobre o seu futuro. Segundo um Relatório Especial do IPCC, se o aquecimento continuar, há perigo real do aumento na média da temperatura global exceder 1,5 grau Celsius em 2030. Manter o aquecimento global dentro desse limite é o objetivo do Acordo de Paris, e é crucial que todos os países acelerem seus esforços para atingi-lo. Para esse fim, devemos ir além da percepção compartilhada de crise e propor uma visão clara em torno da qual seja possível nos unir em solidariedade e mobilizar o engajamento ativo de pessoas de todo o mundo.

Se nos concentrarmos somente nas ameaças que enfrentamos, corremos o risco da indiferença dos que não se sentem diretamente impactados. Mesmo aqueles que reconhecem a gravidade da ameaça poderão se sentir impotentes e concluir que nada podem fazer para mudar a situação.

Isso me lembra de algo que a intelectual e pacifista Elise Boulding (1920–2010) compartilhou comigo. Nos anos 1960, enquanto participava de uma conferência sobre desarmamento, a Dra. Boulding perguntou aos especialistas participantes como eles viam o funcionamento de um mundo totalmente sem armas. Para sua surpresa, eles responderam que não faziam ideia — seu trabalho era somente descrever como o desarmamento é possível. Com base nessas respostas, a Dra. Boulding percebeu que é preciso adotar visão clara e específica de uma sociedade pacífica, caso contrário será impossível unir as pessoas em prol da paz.

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Por muitos anos, a ideia de um tratado de proibição das armas nucleares foi considerada impossível. No entanto, como a preocupação com as consequências humanitárias catastróficas de armas nucleares se intensificou, o esforço para proibir essas armas trouxe ao centro do debate a visão de um futuro melhor, e isso se tornou o fator essencial no ímpeto da solidariedade que levou à adoção do Tratado de Proibição das Armas Nucleares (TPAN) em 2017.

O TPAN vai além de ressaltar como as armas nucleares impõem um risco à segurança de toda a humanidade. Como seu preâmbulo indica, no cerne do tratado está a percepção de como os esforços para fazer avançar o desarmamento nuclear estão indissociavelmente ligados e avançam no trabalho de criar um mundo que assegure os direitos humanos e defenda a igualdade de gênero, um mundo que proteja a saúde das gerações atuais e futuras, um mundo que priorize a integridade ecológica.

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