A vida das crianças é o espelho da sociedade
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A vida das crianças é o espelho da sociedade

A voz delas expressa a esperança capaz de conter qualquer ameaça

O brilhante sorriso das crianças é o verdadeiro termômetro da saúde de uma sociedade. Alguns anos atrás eu estava em San José, Costa Rica, para a abertura de uma exposição sobre a ameaça das armas nucleares. Quando os participantes começaram a se posicionar para ouvir o Hino Nacional, pelas paredes do Museu das Crianças, ao lado, veio um som de vozes livres e roucas— eram estudantes que esperavam o início da exibição. Enquanto a cerimônia continuava, o barulho gerado pelas crianças às vezes chegava a abafar o discurso dos convidados.


Os participantes da solenidade trocavam sorrisos. Parecia que a voz alegre e vibrante das crianças era símbolo e corporificação da paz. A voz delas expressava a esperança capaz de conter até mesmo a ameaça das armas nucleares.


Como adultos, é nossa responsabilidade assegurar que essas vozes puras ressoem bem alto por toda a sociedade. E ainda assim, no Japão nos anos recentes raramente passa um dia sem notícias de incidentes trágicos e perturbadores envolvendo crianças. É muito doloroso saber sobre crianças e jovens que são vítimas ou envolvidos em crimes violentos.


A vida das crianças é o espelho da sociedade. Esses incidentes refletem uma patologia subjacente, que justifica a indiferença dos outros, o desrespeito casual pela sua dor.


Estou extremamente preocupado com o fato de que oferecer aos jovens apenas exemplos de uma forma de vida brutal e descuidada seja extinguir em seu coração a luz da esperança. O coração das crianças fica desolado. Elas se tornam ainda mais vulneráveis a um sistema de valores distorcidos que, pela única e arbitrária medida da tristeza, separa friamente os vencedores dos perdedores.


Precisamos repensar seriamente o que significa vencer na vida e como deve parecer uma sociedade genuinamente afluente.


Alguém em quem confiar


As pessoas da minha geração também experimentaram a dor de descobrir que valores oferecidos a nós pela sociedade eram vazios e sem sentido. Eu tinha 17 anos quando terminou a Segunda Guerra Mundial. Havia nos jovens um sentimento atormentado de vazio espiritual. Não era somente o cenário natural que estava reduzido a cinzas, o bizarro sistema de valores a nós imposto durante os anos de guerra se mostrou falso e foi posto abaixo.


Era natural que muitos jovens se sentissem em estado de ceticismo desesperado, convencidos de que não havia nada em que confiar. Como eles, eu achava impossível confiar nos intelectuais e nos políticos que, tendo cantado louvores à guerra e levado um grande número de jovens à morte, da noite para o dia se tornaram apóstolos da paz e da democracia.


Senti-me profundamente afortunado por ter conhecido, nessa difícil conjuntura da minha juventude, uma pessoa que se engajava comigo e com outros jovens de cabeça erguida e a quem eu considerava meu mestre na vida.


Quando me encontrei com Josei Toda pela primeira vez, naquela pequena reunião de associados da Soka Gakkai, ele estava com 47 anos. Era quase trinta anos mais velho que eu, e mesmo assim, respondeu minhas perguntas com sinceridade e humildade.


Ele havia sobrevivido ao regime militar que extirpou dos japoneses seus direitos e liberdades, jogando o país numa guerra de invasão. Como resultado, ele suportou perseguições e dois anos de prisão. As palavras de uma pessoa que suportou o cárcere por suas convicções têm um peso especial. Intuitivamente, senti que poderia confiar nele.


Josei Toda era educador e tinha profundo amor pelos jovens; suas conversas abrangiam diferentes temas à medida que partilhava suas opiniões sobre os problemas mais difíceis da vida.


Ele organizava sessões de estudo ao ar livre para os jovens rodeadas por belos cenários que nos ajudavam a recuperar a vitalidade. Lembro-me de uma ocasião em que, num acampamento perto de um rio, conversamos com ele até tarde da noite a respeito de coisas que nos preocupavam: as relações com nossos pais, o casamento, nossa vida e sobre o futuro.


Josei Toda tinha uma profunda fé e confiança nos jovens; via neles possibilidades que nem sequer imaginavam. Por outro lado, os jovens eram transformados pela confiança, coragem, esperança que ele instilava.


Tesouro interior


De minha própria experiência, estou convencido de que poucas coisas são tão cruciais para o crescimento saudável das crianças do que encontrar alguém que verdadeiramente acredite nelas. Estudos sugerem que os jovens que agem com violência frequentemente sofrem com o sentimento de que ninguém se interessa ou se importa com eles. O comportamento problemático das crianças é uma dura reflexão sobre o egoísmo e a apatia da sociedade adulta.


No Sutra do Lótus consta a seguinte parábola:


Certa vez um hospedeiro recebeu a visita de um amigo de longa data. O visitante, que era um andarilho dos mais viajados, olhou com carinho seu hospedeiro. Os dois eram amigos muito íntimos, mas o tempo, o trabalho e outros assuntos mundanos aos poucos os havia separado.


Enfim a distância terminou e os dois felizes companheiros celebraram o reencontro com uma refeição suntuosa e muito vinho. Passaram o dia em alegria, mas, agora que a noite chegara, o visitante estava tão embriagado pelo vinho que a única coisa a fazer era fechar os olhos e dormir profundamente.


Enquanto o visitante descansava pesadamente, o hospedeiro teve de atender um importante e inadiável chamado. Não havia maneira de recusar e, embora triste por ter de abandonar o amigo, decidiu partir imediatamente para a missão. Antes, porém, preocupado com o bem-estar do seu amigo, escolheu sua joia mais preciosa e costurou-a sob o manto do amigo.


Pensou: “Quando ele acordar pela manhã, certamente ainda estará bem sonolento. Verá que eu tive de partir e ficará desapontado. Porém, quando vir esta preciosa jóia compreenderá que, a despeito da minha rude e apressada partida, eu o amo profundamente e lhe desejo o melhor. Colocando a joia sob sua roupa, ele a levará sem falha. Se a colocar em outro lugar, talvez ele não a perceba ou a esqueça”.


Pela manhã, o visitante, ainda “grogue”, olhou em volta e ficou desapontado por não ver o amigo. Com pesar, vestiu a roupa e foi seguindo seu caminho sem perceber a joia escondida em seu manto. Por muito tempo vagou percorrendo estradas arenosas e inúmeros países numa constante luta pela sobrevivência. Trabalhou duramente sem a mínima ideia da riqueza que levava consigo.


Um dia os dois amigos se encontraram novamente. O hospedeiro ficou chocado com a aparência do amigo e perguntou-lhe com compaixão:


“Por que você se tornou tão pobre e miserável? Quando me visitou, costurei a mais preciosa das jóias nas dobras de sua roupa, de modo que pudesse viver uma vida digna. E mesmo assim tem levado esta vida miserável? Deve usar imediatamente essa joia e mudar sua condição de vida. Então terá tudo que almeja”.


Pela primeira vez o visitante compreendeu o grande tesouro que seu amigo lhe havia dado. Seu ser se iluminou de alegria e lágrimas deslizaram pela sua face. (RDez, ed. 167, nov. 2015, p. 22-23)


Cada jovem possui uma joia preciosa de infinito valor em seu interior. Permanecer inconsciente disso e cair na pobreza espiritual é um trágico desperdício. Em contraste, uma pessoa plenamente que desperta para a joia da dignidade da própria vida é capaz de respeitar verdadeiramente o tesouro dos outros.


Todos nós temos possibilidades, tanto em nossa família como na comunidade, de interagir com os jovens. Espero que os adultos façam esforços para ouvir atentamente a voz deles. Esses pequenos cuidados podem revigorar e fortalecer um coração jovem. Cada um de nós deve se empenhar para ser uma fonte consciente de calor humano e nutrição espiritual.


Embora isso pareça trabalhoso e requeria tempo, estou convencido de que esses esforços — a ressonância e a confiança que aparecem entre uma vida e outra — fazem surgir pessoas profundamente sensíveis aos sofrimentos dos outros e capazes de uma ação empática em prol deles. Esse é o primeiro passo rumo à construção de seres humanos de valor que apoiarão uma sociedade genuinamente saudável. São as sementes da esperança que podemos plantar hoje.




Fonte: Brasil Seikyo, ed. 2399, 09 dez. 2017 | Filosofia da Esperança


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