Cidadã do mundo
  • ENTREVISTA

Cidadã do mundo

Fernanda é dessas pessoas que inspiram coragem e força.

Conversamos pelo telefone e em cada momento, ela se revela uma grandiosa mulher disposta a dar o seu máximo para lutar efetivamente pela dignidade da vida.

O ápice desta história foi quando a jornalista decidiu abandonar o emprego em um renomado canal de televisão em Los Angeles para mergulhar em seu próprio universo; época em que também conheceu o budismo. “Eu percebi que não era tão ambiciosa quanto imaginava e que tinha uma missão maior do que aquilo tudo o que vivia”, diz.

E, foi na África que descobriu o campo de atuação para pôr em prática os seus ideais, e aquilo que começou com uma tese de mestrado, se transformou num significativo trabalho humanitário mundo afora.

Essa mulher é uma cidadã do mundo. E, a alegria que sente em ajudar as pessoas é evidente até mesmo no tom da voz.

É fato que, até aqui sua jornada motive muita gente, mas a história toma um rumo heroico quando Fernanda vence em 2008, um câncer de mama que a fez repensar a vida e se encorajar a vencer: "Cheguei a escrever uma carta dizendo que  'Caso eu passasse para a outra dimensão, gostaria de ter meu corpo cremado em cerimônia budista. As cinzas, caso haja oportunidade, atirar no mar de Fernando de Noronha, ao nascer do sol'.  O câncer veio para me fazer ver que, antes de ajudar o mundo, preciso estar saudável. Faltava abrir espaço para o amor, a família, os amigos. Perdi as mamas, mas ganhei o meu coração de volta".

Isso aconteceu no mesmo ano em que ela funda a Proplaneta que, por meio de vídeos participativos visa inspirar, facilitar e empoderar grupos e comunidades ao redor do mundo, a identificar, promover e compartilhar soluções que possam transformar sua vida, contribuindo para um planeta sustentável.


 Fernanda na Costa do Marfim na cooperativa de plantadores de cacau, jun. 2013

Qual foi a sua motivação para fundar a Proplaneta?

A ideia de fundar a Proplaneta veio de uma forma muito orgânica quando estava em missão no Malaui, África, como pesquisadora da tese do meu mestrado. Estava atuando pela Cruz Vermelha de Malaui e pelo Centro de Referência de Mudanças Climáticas da Holanda. 

Passei dois meses fazendo uma pesquisa para aferir o impacto da metodologia de vídeo participativo como ferramenta de comunicação para facilitar o intercâmbio de práticas de adaptação a mudanças climáticas entre cinco comunidades rurais muitos pobres do Malaui.

Fiquei encantada porque os bons exemplos e mensagens-chave selecionados e filmados pelos próprios aldeãos foram levados para quatro comunidades vizinhas que sofriam com impactos climáticos similares. Não era somente um vídeo, mas sim conteúdo com objetivo de provocar mudança de comportamento das comunidades em prol da melhoria de suas vidas. Entre nós humanitários sempre dizemos que "comunicação eficiente ajuda a melhorar e salvar vidas".

Após esta primeira experiência decidi ciar a Proplaneta. Contatei um designer que me ajudou a desenvolver o site e passei meus fins de semana livres em Malaui refletindo sobre a visão, missão e objetivos da organização. Voei alto com um coração idealista sim, mas calcado no que vi na vida real e também na minha prática budista que foi fundamental para clarear qualquer dúvida. E o interessante é que para mim a Proplaneta tem dois lados que se complementam e se interconectam: o lado correspondente à pessoa jurídica e o da pessoa física. Mas na realidade somos a mesma coisa. Pois, a visão da Proplaneta permeia minha atuação como consultora independente para organizações internacionais humanitárias.

Foi assim que consegui realizar muitos projetos no Brasil e no exterior, como por exemplo em 2015, quando fui contratada pela Organização das Nações Unidas para uma missão em Uganda, África.


Fernanda no Equador em apoio aos acampamentos nas comunidades afetadas pelo terremoto que ocorreu no país em abril deste ano

Quais outros projetos se destacaram?

A última missão em que atuei foi no Equador onde fui enviada pela NORCARP, rede humanitária do Goveno na Noruega, para apoiar a Organização Internacional para as Migrações (OIM), agência ligada à Organização das Nações Unidas (ONU). Entre maio e agosto estive na área destruída por um terremoto de magnitude 7.8, que atingiu a região em 16 de abril deste ano. Foi um dos terremotos de maior destruição de todo o nosso planeta em 2016.

Atuei como especialista em comunicação com as comunidades deslocadas internamente (IDPs), capacitando mulheres e jovens com vídeos participativos em três dos maiores acampamentos. O objetivo era ajudá-los a recuperar a sua dignidade a partir do empoderamento gerado nos processos de produção dos vídeos. Eles fizeram três vídeos sobre a importância da participação comunitária na gestão dos acampamentos que foram projetados para representantes do governo e outras comunidades. Fui embora do Equador com o coração dividido, pois na verdade gostaria de ter ficado muito mais tempo por lá, mas tinha compromissos familiares em Genebra e acabei retornando. Um dos maiores desafios desta estrada humanitária é justamente o equilíbrio entre as missões, a vida pessoal e a familiar. Por isso, nossa prática budista, que nos provoca constante autorreflexão, é crucial. Preciso estar constantemente conversando comigo mesma para avaliar se meu ritmo e direção estão mesmo corretos. Não é fácil.

Outro trabalho inesquecível foi em 2013, na Costa do Marfim quando ajudei uma cooperativa de plantadores de cacau produzir um vídeo participativo com sugestões de melhorias no processo de certificação de cacau sustentável. O vídeo com seis importantes mensagens foi levado ao Congresso Internacional da Indústria do Cacau para ampliar as vozes daqueles que são menos ouvidos na cadeia, nem sempre justa, da produção do nosso delicioso chocolate. Para realizar o projeto tive de enfrentar o risco de ser raptada pelos resquícios das milícias ainda presentes desde o fim da guerra civil que devastou o país entre 2002 e 2007. Durante o percurso de 140 km entre São Pedro (onde eu estava hospedada) e a cooperativa, passávamos por cinco check-points de diferentes milícias, o que colocava nossa vida em risco. Pela primeira vez estive acompanhada por um guarda-costas com uma enorme metralhadora nada amigável. Nos primeiros dias, recitava muito daimoku para dominar o medo. E, no fim da missão senti claramente a proteção decorrente da prática budista depois de ter passado 48 vezes pelos check-points e não ter sido parada nenhuma vez.

Outro projeto que me lembro durou quase cinco anos. A Proplaneta colaborou com o programa Diálogo Jovem, uma iniciativa da área de Responsabilidade Social da Federação de Transportes do Estado do Rio de Janeiro com o objetivo de capacitar jovens líderes. Capacitamos mais de 200 jovens em comunicação, vídeo participativo e jornalismo cidadão. Apoiamos jovens no desenvolvimento de um jornal mensal para as TVs dos ônibus e também para o canal Diálogo Jovem no Youtube. Mais de 25 programas sobre mobilidade inteligente foram produzidos abordando temas como sustentabilidade e gentileza no transporte público. Foi algo extremamente gratificante trabalhar com esses jovens protagonistas em prol da qualidade de vida.

Simpática, Fernanda vai explicando como funciona o seu trabalho e sobre como acredita na mudança do mundo. “Precisamos de uma força tarefa no mundo para pensar num futuro melhor. Por isso, escolhi dedicar minha vida a isso. ”

Pouco a pouco, mostra que o budismo é a filosofia que a encoraja a construir uma história em prol da felicidade das pessoas. “Eu não consigo me imaginar diferente do que sou hoje e minha fonte de determinação, persistência e coragem sem dúvida é a prática budista”.


Como aplica o budismo no seu trabalho?

O budismo, a Proplaneta e a Fernanda são uma coisa só. O budismo é a base porque isso tudo não existiria sem essa filosofia. É somente com compaixão e benevolência fundamental que é possível realizar um trabalho que não está focado na remuneração, mas na humanidade. Nesse sentido, ser budista despertou em mim essas características que todos nós temos. Isso provocou a decisão de eu sair da CNN e encontrar a minha essência, foi natural. Quando recebi o Gohonzon em 2006, senti que aconteceu um reencontro comigo mesma e a partir daí segui uma nova trajetória de humanismo.

E, se não fosse a prática budista eu não teria coragem, confiança eu não seguiria em frente.


Proplaneta colabora com o programa Diálogo Jovem no RJ, nov. 2012

O presidente Ikeda cita que o triunfo da África refletirá em toda a humanidade. Você concorda com isso?

Concordo totalmente. Eu sou apaixonada pela África, mas sua realidade é triste e muito dura.

Resolver os problemas desse continente requer muito, mas muito empenho para realmente educar, capacitar e ajudar a mudar o comportamento dos indivíduos, comunidades e governantes que alimentam e engessam o ciclo de miséria e pobreza. A África é o berço da civilização e portanto, merece alçar vôo. Em dezembro retorno ao continente para duas missões com a Federação Internacional da Cruz Vermelha. Vou especificamente trabalhar em uma comunidade de Maasais na Tanzânia e num vilarejo no sul de Malaui, na fronteira com Moçambique. Estou ansiosa porque foi em Malaui onde tudo começou, onde tive a ideia de fundar a Proplaneta. Nesse lugar, determinei que nunca mais deixaria de trabalhar com as comunidades mais afetadas do planeta. E são tantas! Dos 53 países africanos, Malaui é um dos mais pobres e enfrenta atualmente uma das secas mais devastadoras da sua história. Mas, quando piso nesses lugares sou um buda representando a postura humanista do presidente Ikeda com meu coração, e tento pôr isso em prática no sentido mais amplo da palavra. Isso é o que importa. Transito em lugares difíceis, mas sei que sempre haverá piores. Na verdade temos muita sorte.


Antes mesmo que a entrevista fosse publicada, Fernanda retornou à Genebra, Suíça, onde reside atualmente, depois de passar alguns dias no sul (a região em que nasceu) e sudeste do Brasil.

A agenda é cheia, e entre um país e outro, ela revela que concilia o tempo para participar das atividades da Soka Gakkai. “Procuro sempre atuar na organização e contar minha história. Faço visitas, faço daimoku com os membros. Não importa onde eu estou, sempre procuro a SGI”, diz.


Antes de terminar, arrisco a perguntar: Quais são os seus planos futuros?

Ela dá uma gargalhada, reflete um pouco e cita: “Estou me apaixonando pela causa dos refugiados da Síria. Aí pensei que quero muito estar mais próximo à Síria. Essa é a minha meta para os próximos anos! Essas pessoas precisam de amparo, precisam voltar a enxergar a vida de outra forma e perceber que podem retomar a sua história e serem felizes novamente”, finaliza.



Notas:

1. Fernanda também dirigiu o vídeo Nutrindo Sementes de Esperança para SGI Japão com o objetivo de alertar os jovens e crianças sobre a importância da educação ambiental. O documentário foi exibido em junho de 2012 na convenção Rio+20 junto com a Proposta de Paz, cujo tema aborda a sustentabilidade. Assista o vídeo em: https://www.youtube.com/watch?v=ol8zMlwGXLU

2. Assita também vídeos do programa Diálogo Jovem, produzidos no Rio de Janeiro em:  https://vimeo.com/channels/979746 
3. Acompanhe o canal da Proplaneta no Vimeo:  https://vimeo.com/proplaneta

Link: Pro Planeta

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