Defender sempre o respeito à vida
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Defender sempre o respeito à vida

A visão budista sobre o aborto

A filosofia do budismo nasce como resposta aos quatro tipos de sofrimentos fundamentais, descritos por Shakyamuni. Entre eles encontramos o “sofrimento de nascimento”, muitas vezes relacionado às relações familiares, podendo ainda ser interpretado, principalmente do ponto de vista feminino, com relação a um de seus ritos de passagem como a gravidez. Com relação à gravidez, é incontestável a felicidade e a alegria que ela pode trazer. Daishonin demonstra esse sentimento em cartas endereçadas à família de Shijo Kingo quando da chegada de sua filha: “Soube do nascimento da filha de vocês. Parabéns! Hoje é um dia especial, o oitavo dia do mês. Além de terem tido uma filha, ela chegou em um dia auspicioso. O desejo do casal foi plenamente realizado” (CEND, v. I, p. 196).


Essa passagem se dá no momento em que a esposa de Shijo Kingo, Nichigen-nyo, enviou ao Buda uma carta pedindo-lhe ajuda para se assegurar que o parto ocorreria bem. Daishonin então responde dizendo-lhe que não há nada o que temer, pois ela e o marido eram praticantes do Sutra do Lótus (cf. CEND, v. I, p. 195).


Mas, o que isso tem a ver com aborto? O aborto é um assunto polêmico por mexer com a concepção ética e moral da maioria das pessoas. Atual­mente, muitos movimentos sociais e organizações internacionais, como a ONU Mulheres, vêm denunciando a necessidade urgente da sua legalização em diversos países. Contudo, essa ação encontra muita resistência por parte de setores da sociedade e da população em geral. É nesse contexto que a Divisão dos Universitários vê como necessária a discussão.


No livro Valores Humanos num Mundo em Mutação, o Dr. Daisaku Ikeda, líder da SGI, afirma: “Como defensor do respeito pela vida, sou inteiramente contrário ao aborto na maioria dos casos, portanto considero errado terminar artificialmente uma vida já iniciada e, assim, condená-la à escuridão antes de chegar sequer a ver a luz. Além do mais, o aborto é física e mentalmente uma crueldade com a mãe e, se realizado com frequência, pode deixá-la estéril. Quando pode ser provado que a continuação da gravidez ou o parto a termo são perigosos para a mãe, julgo o aborto aceitável” (BS, ed. 1.892, 19 maio 2007, p. A12).


O budismo é a filosofia de vida que permite ao ser humano manifestar seu máximo potencial em meio às dificuldades e é por acreditar que a vida é uma joia preciosa que a SGI, na figura do seu líder Dr. Daisaku Ikeda, expressa sua posição de que o aborto deve ser a última opção, não devendo nunca ser banalizado ou tratado como método de controle de natalidade.


Porém, o presidente da SGI, em total compreensão acerca dos sofrimentos das mulheres do século 21, deixa claro seu posicionamento em relação à prática ser aceitável em casos em que comprometam a vida da mãe.


No Brasil, a cada dia, em média, quatro mulheres morrem em hospitais por complicações em decorrência de abortos clandestinos. Até setembro de 2016, foram 1.215 mortes no ano.¹ Tais dados tornam o aborto no Brasil não só um assunto ético, mas também de saúde pública.


Então por que, apesar de clandestinamente, elas continuam a recorrer a esses procedimentos?


No mesmo texto, o Dr. Daisaku Ikeda afirma: “Insisto que é mais importante criar condições sociais e morais nas quais nem ocorra estupro nem incesto do que abortar” (Ibidem).


Trazendo isso para a realidade do nosso país, sabemos que uma pesquisa de 2011 mostra que 70% das vítimas de estupro no Brasil foram crianças e adolescentes.² Além disso, no ano de 2014, o país possuía um caso de estupro notificado a cada 11 minutos.³


Nesse sentido, temos muito que caminhar com o objetivo de travar diálogos sobre a segurança, respeito e dignidade das mulheres. Apesar de o aborto em casos de estupro ainda ser permitido no país, as mulheres encontram uma série de barreiras para comprová-lo e acessar esse procedimento em hospitais públicos, tornando o aborto clandestino muitas vezes a via mais fácil.


É diante desses fatores que a ONU Mulheres vê como urgente a ampliação do debate sobre o aborto no mundo, tal como a sua legalização.⁴ Vale destacar, também, as diferenças entre a realização do aborto e sua criminalização. O budismo, por acreditar na lei de causa e efeito, possibilita ao indíviduo a liberdade na escolha de suas ações permitindo-lhe ter a compreensão de suas consequências.


Antonio Nakamura, vice-presidente da BSGI, em matéria anterior para o BS, disse: “No Budismo Nichiren não há julgamentos sobre a sexualidade ser boa ou má, nem imposições para que seus praticantes manifestem um comportamento sexual em particular, deixando a decisão para o próprio indivíduo. Por isso, o budismo não opina moralmente sobre a homossexualidade, assim como não discrimina qualquer outro tipo de preferência ou menospreza qualquer tipo de seres vivos. Como budistas conscientes e membros da SGI, devemos antes de tudo considerar que são os preconceitos e as discriminações que provocam os conflitos entre os seres humanos” (BS, ed. 1.923, 12 jan. 2008, p. B6).


Na história do budismo, tudo o que é relacionado à figura feminina vem sofrendo alterações. Nesse sentido, o aborto precisa ser analisado do ponto de vista da dignidade da vida da mãe em total equilíbrio com a dignidade da vida do feto. Dentro dessa perspectiva é que devemos discutir tal assunto, nos permitindo reavaliar políticas públicas de acordo com as suas necessidades. Como o Budismo Nichiren não proclama um comportamento moralista, mas uma filosofia que defende o respeito pela vida, é importante o respeito às decisões e às necessidades de cada mulher.




Fonte:

Brasil Seikyo, Edição 2414, 07/04/2018, pág. F4 / Caderno das Divisões

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