O universo a meu favor
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O universo a meu favor

Max Gaggino saiu da Itália com o desejo de construir uma história significativa por meio do trabalho. No meio do caminho encontrou o budismo e a vida ganhou outro significado. Premiado diversas vezes pelo seu talento no cinema, conclui que tudo depende do comprometimento. "A partir do compromisso conseguimos tudo. Tudo mesmo! Até voar."


Como iniciou seu trabalho no cinema?

Aos 17 anos saí de casa com o sonho de inspirar pessoas. Eu ainda não era budista e não sabia como realizar essa vontade. Apenas me lembro que durante o show em Londres, Reino Unido, onde estava estudando cinema na época, o cantor mandou a banda parar de tocar, se sentou no palco e começou a chorar. Então falou sobre o começo da sua carreira e incentivou: "Nunca deixem que ninguém lhe diga o que podem ou não podem fazer. É só uma questão de querer".

Aquele rapaz era capaz de mudar o mundo, e eu queria fazer o mesmo. Entendi que por meio do cinema conseguiria passar minhas ideias e ao mesmo tempo juntar pessoas, e comecei do zero um trabalho rigoroso com o objetivo de ser reconhecido.


Nota do redator: Motivado, Max conclui os estudos e se muda para o Brasil em 2008. A cidade: Salvador, BA. Ele diz que esse era um antigo sonho que tinha.


Quando saiu da Itália aos 17 anos, Max decidiu que seria reconhecido pelo seu trabalho
 Como é trabalhar com cinema num país novo?

Digo que fazer cinema na Bahia é como querer ser astronauta e começar em Nápoles (risos). Comecei gravando videoclipes gratuitos nas comunidades carentes de Salvador. Em menos de um ano tinha gravado mais de quinze videoclipes e a cena de hip-hop local ganhou uma visibilidade considerável. E, com recursos próprios gravei Menino Joel, o longa documentário que trata de um capoeirista de dez anos morto pela arma de um policial. O filme virou notícia rapidamente, estreou nos cinemas e virou um pequeno fenômeno cult local.


Essa repercussão trouxe alguma mudança em sua vida?

Eu fiquei conhecido. Continuei minha luta, mas em paralelo comecei a me perder numa ambição fomentada pelo sentimento de culpa por ter sido um jovem irresponsável e ter perdido boa parte da juventude bebendo e usando drogas. Essa ambição cresceu e eu me distanciei das pessoas que mais amava. Com isso, passei a ter ataques de pânico e uma profunda sensação de tristeza.


Mesmo diante de tais dificuldades, com recursos próprios ele grava Contracorrente (2013), filme gravado com 20 mil reais, que conta a história semi-autobiográfica de um jovem italiano lavador de pratos que foge da crise econômica italiana para morar em Salvador. O longa metragem custou todo o orçamento do cineasta. "Minha mulher e eu chegamos a ficar sem luz e sem água em casa", relembra.

Foi nessa época também, que ele tem o primeiro contato com o Budismo de Nichiren Daishonin.


Quem lhe apresentou o budismo?

Foi uma amiga chamada Jaqueline. Ela me convidava para conhecer uma sede da BSGI em Salvador, mas eu sempre arrumava uma desculpa para não ir. Neste período minha ex-namorada, a pessoa pela qual conheci o Brasil, perdeu a luta contra a depressão, se jogando do décimo andar de um prédio no Rio de Janeiro. Duas semanas depois, um grande amigo se enforcou em seu quarto. Cheguei ao fundo do poço, mas disposto a fazer de tudo para mudar o curso da minha vida.

Resolvi praticar o budismo e recebi o primeiro benefício com quinze minutos honestos de recitação de daimoku, pois vivi uma felicidade nunca sentida antes! Mas, um ano depois da minha conversão comecei a duvidar da prática. Isso durou até eu chegar ao ponto de precisar desesperadamente sentir a felicidade de recitar daimoku novamente, sem me perguntar o por quê.


Você se restabeleceu?

Eu me dei conta de que o efeito do daimoku depende fundamentalmente de um ponto central: o compromisso real com você mesmo.

Tudo ganhou novo sentido e minha vida se transformou quando descobri que seria pai depois que alguns médicos alegarem que teria dificuldades para ter filhos [A filha Aisha, nasceu em 8 de setembro de 2015]. Depois disso fui premiado na categoria melhor diretor e melhor videoclipe no prestigioso Prêmio Caymmi, para um clipe gravado com 500 reais.

Gravei com meus recursos o curta-metragem Haram, que narra a história de uma refugiada muçulmana palestina em Salvador e o curta ganhou o prêmio do público em Genova, minha cidade na Itália. Além disso, fui selecionado para o Festival Internacional de Cinema de Gramado, considerado o Oscar da América Latina. Estava visitando meus familiares na Itália na ocasião. Quando soube da notícia eu me lembrei de que, em 2014, havia recortado a foto do ganhador daquele ano, colei minha foto em cima e escrevi a data na qual defini que ganharia o prêmio no festival. Coloquei a foto na parede do meu quarto para vê-la todo dia!


Max também foi premiado pelo filme Haram, na Goiânia Mostra Curtas em 2015 

Você ganhou o prêmio?

Diante da indicação, vim rapidamente da Itália para o Brasil. Na manhã da premiação fiz daimoku durante uma hora e meia pela primeira vez e senti uma felicidade interna tão grande que comecei a dar risada sozinho, como se estivesse debochando de minhas próprias preocupações. Foi naquele momento em que tive a certeza absoluta de que ganharia o prêmio. Ao passar pelo tapete vermelho degustei cada passo como se fosse chocolate e me sentei no meu lugar para assistir a cerimônia.

Estava tão relaxado que na hora que o apresentador falou meu nome não me dei conta de que tinha ganhado. Só consegui ouvir meu nome, os aplausos e notas 500 cabeças presentes no cinema olhando para mim como uma bola de tênis.

Na festa da premiação minha vontade mesmo era deitar sozinho no meu quarto e refletir sobre o que tinha acabado de fazer. Quando digo fazer, não me refiro a ganhar o prêmio, mas ter induzido o universo a meu favor para que o prêmio chegasse até mim por meio do meu trabalho. Eu sei que fiz isso.


Max vive um grande momento em sua carreira e sua história é significativa o bastante para ser reconhecida por onde passar. "Meu maior aprendizado depois desta aventura é a certeza que a partir do compromisso, que seja uma vez só na vida, conseguimos tudo. Tudo mesmo! Até voar", finaliza.

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