Um brado de justiça por uma cultura de paz
  • ENTREVISTA

Um brado de justiça por uma cultura de paz

A educação em direitos humanos conscientiza as pessoas sobre o impacto da violência na vida e as impulsiona para a paz

Horas antes de iniciar o encontro promovido pelo Departamento de Artistas (Depart) da BSGI sob o tema "Um brado de justiça por uma cultura de paz" – alusiva dos 60 anos da Declaração pela Abolição das Armas Nucleares, de Josei Toda – os organizadores e grupos de bastidores já se preparavam para a atividade.


Muitos, acostumados com o corre corre por trás das cortinas, se atentavam aos últimos detalhes. E o que se viu foi alegria, comprometimento.


No último dia 16 de setembro, no Centro Cultural Dr. Daisaku Ikeda, em São Paulo, cerca de 900 pessoas assistiram as impecáveis apresentações do Depart e se emocionaram ao ouvir o relato do Sr. Seiitsu Imagawa, sobrevivente da bomba de Hiroshima, que relatou sobre como fez desse sofrimento o ponto de partida para uma nova história.


Para falar sobre a declaração de Josei Toda, os associados da BSGI Carmo Dalla Vecchia (ator de cinema, televisão e teatro), Rogério Oliveira (oficial de monitoramento e avaliação do Fundo das Nações Unidas para a Infância – UNICEF e economista do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento –PNUD), Naoto Yoshikawa (vice-presidente do Conselho Orientador da BSGI) realizaram um debate a respeito da construção da paz com a seguinte reflexão:


Vivemos realmente num país sem conflitos?

Rogério Oliveira: Em média, 60 mil pessoas morrem vítimas de homicídio no Brasil. Então, é muito possível que duas pessoas estejam sendo mortas neste momento.


Com isso, nos últimos 4 anos o números de vítimas fatais chegou muito próximo do número de vítimas das bombas de Hiroshima e Nagasaki, no Japão. As armas de fogo ainda são uma grave ameaça no Brasil, em especial para os jovens negros.


Essas e outras estatísticas de violência no país são muito impactantes e o que precisamos fazer é humanizar os números.


Efetivamente, como se transforma esse cenário?

Rogério Oliveira: Na Proposta de Paz 2016 consta a regularização das armas e o controle de circulação delas. Outra forma eficaz é a educação, mas uma educação voltada para os direitos humanos, para o desarmamento. Informar as pessoas sobre o impacto das armas no cenário de violência torna-as conscientes.


Além disso, precisamos nos conscientizar para a não-proliferação das armas nucleares, que é algo que fere a dignidade da vida de toda a humanidade. É necessário cortar o mal pela raiz. O buda Shakyamuni já defendia a ideia de matar o nosso desejo de matar. E vejo, a partir dos três mestres do kosen-rufu, a responsabilidade que eles assumiram por esse ideal e como se engajaram em levá-lo para todas as pessoas. São ações que geram resultados.


Ao trazer tais reflexões para para os profissionais do meio artístico questionou-se:

Qual é a relação entre paz, cultura e a arte?


Carmo Dalla Vecchia: A arte tem poder de conseguir conectar com as pessoas sem precisar de explicação.


Nichiren Daishonin manifestou sua essência, seu estado de buda no Gohonzon, onde está impregnado sua vida e sua luta. Quando unimos as nossas mãos e recitamos daimoku diante desse objeto de devoção, conseguimos conectar o nosso estado de vida ao estado de vida do Buda e assim, podemos nos desenvolver e ajudar a desenvolver o mundo ao nosso redor, construir a paz ao nosso redor. Pode ser que nunca tenhamos pensado no Gohonzon como uma obra de arte, mas nele está manifestada a essência da vida, tão poderosa e tão forte que hoje, temos a habilidade por meio do Gohonzon de manifestarmos o estado de buda.


O índio não tem noção de arte, para ele não existe o artista ou a palavra arte porque todo mundo para ele é artista. Nesse sentido, penso que somos grandes artistas capazes de revelar a nossa existência, a nossa vida como a joia maravilhosa que ela é. Temos a habilidade de, com a nossa voz comunicar as pessoas e fazer com que elas cheguem ao desenvolvimento da sua vida também. E é isso que muda o mundo.


Como se deu a iniciativa da Soka Gakkai de se engajar pela abolição das armas nucleares e o que tem sido feito para tanto?

Naoto Yoshikawa: Sabemos quão devastador são os resultados de uma guerra. Quando o segundo presidente da Soka Gakkai, Josei Toda, foi libertado da prisão em 3 de julho de 1945, dois meses antes de encerrar a Segunda Guerra Mundial, ele encontrou um país devastado pela guerra. Isso o impulsionou a criar essa declaração.

O presidente Ikeda se levantou com um brado pela paz para corresponder ao seu mestre. E, com esse brado ele quer transmitir, especialmente para os jovens esse ideal.


É por isso que em nossa organização, sob o direcionamento do Mestre, temos nos engajado nesse propósito buscando um mundo pacífico. Esse movimento, nós chamamos kosen-rufu.


Recentemente, comemorando os 60 anos da Declaração pela Abolição das Armas Nucleares, a Divisão dos Jovens de Kanagawa, no Japão – local onde foi proferida essa declaração – publicou um livro comemorativo. Nele, o presidente Ikeda escreveu no prefácio como título: Solidariedade do Juramento Rumo a Um Mundo Sem Armas Nucleares. Resumidamente, ele descreve propostas concretas que tem apresentado anualmente à Organização das Nações Unidas, como muitos sabem. Essas são ações que visam o bem de toda a humanidade.


O que podemos fazer enquanto cidadãos comuns para darmos esse brado de justiça?

Carmo Dalla Vecchia: São as nossas pequenas ações, que por estarem conectadas com o todo, garantem a mudança. Como isso corresponde à nossa vida, tudo começa com a gente.


Rogério Oliveira: A paz mundial começa comigo mesmo, começa em casa. Então, a reflexão é sobre como eu posso transformar o meu ambiente familiar, o meu trabalho, a relação com meus amigos. E o principal, sobre como estou me relacionando comigo mesmo. Sem dúvida, esse movimento da revolução humana, do shakubuku e de levar os ideias do presidente Ikeda para a sociedade são ferramentas muito importantes na construção da paz.


Naoto Yoshikawa: Nós aprendemos no budismo que a causa fundamental de toda infelicidade está dentro da própria pessoa – são os três venenos: avareza, ira e estupidez. Por outro lado, a força que é capaz de combater essa causa também está no próprio ser humano – a natureza de buda. Então, o caminho para transformar a humanidade é a revolução humana de cada pessoa.

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Foto por: José Luiz Coelho

Naoto Yoshikawa é engenheiro elétrico, modalidade eletrotécnica, pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Tem curso de especialização em transmissão de energia em corrente contínua.

É o atual vice-presidente do Conselho Orientador da BSGI. Pratica o budismo há 42 anos.

Carmo Dalla Vecchia, ator de teatro, cinema e TV. Na BSGI é vice-responsável pelo Distrito Ipanema no Rio de Janeiro, CGRJ. Pratica o budismo há 20 anos.

Rogerio Carlos Borges de Oliveira é economista com mestrado em estudos do desenvolvimento com foco em Peacebuilding (processo de construção da paz em conflitos armados) pelo Instituto de Altos Estudos Internacionais e de Desenvolvimento da Universidade de Genebra e Master em expertise econômica para o desenvolvimento da Universidade de Paris 1- Pantheon- Sorbonne.

Atua na áreas de desenvolvimento humano e direitos humanos, em especial a temas relacionados à vulnerabilidade e violência.

Foi voluntário do escritório de Representação da SGI perante a Organização das Nações Unidas em Genebra para o Projeto de Educação em Direitos Humanos. Atuou como Voluntário das Nações Unidas e Economista no Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) para o Relatório, o Atlas e o Índice de Desenvolvimento Humano no Brasil. Atou como Oficial de Monitoramento e Avaliação no Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) principalmente para os temas de Emergências e para Programa Crescer sem Violência.

Na BSGI atua como responsável pelo Distrito Sudoeste, CGRE. Pratica o budismo há 21 anos.

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